terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Humanizando os cães

De alguns anos para cá, venho percebendo um movimento crescente e preocupante de elevação dos cães à categoria de "gente". Esse fenômeno surgiu basicamente por dois motivos:
- Mudança dos padrões e relações familiares atuais. Antigamente o parceiro e os filhos eram o centro das atenções e das preocupações de um indivíduo adulto, e a presença de um animalzinho, vista mais como diversão para os filhos pequenos.  Hoje nem todos se encaixam nesse antigo modelo "pré-fabricado" de vida. Muitas pessoas não encontram ou mesmo não querem um parceiro (ou têm um que mal fica em casa!), os casamentos duram pouquíssimo (deixando os filhos com apenas um dos pais a maior parte do tempo), muitos casais que não podem ter ou optam por não ter filhos ou por atrasar ao máximo sua vinda, os filhos que saem cada vez mais tarde de casa, mas ao mesmo tempo, cada vez mais cedo dedicam-se a atividades fora do lar. O tempo que a família fica junta, realizando "trocas" de amor e atenção, se perdeu sobremaneira em quantidade e qualidade.
- Status. Ter um animal de determinada raça, e pagar uma quantia muitas vezes alta por ele é "sinal" de sucesso e garantia de aceitação em alguns meios sociais para muitas pessoas. É como ter aquele amigo "descolado" e carismático que te põe pra dentro das festas, faz gente que nunca chegaria perto de você numa situação normal se aproximar, flertar, etc. Mesmo que seja para pagar alguém para cuidar do animal e nem ao menos tocá-lo (vide aumento dos serviços leva-e-traz de banhos, entrega de ração e produtos, os passeadores, hotéis especializados, day-cares, etc), como por exemplo colocar um enorme Bernese num apartamento de 70 metros quadrados só por que a raça está na moda (verdadeiro absurdo) apenas para sair com ele de bandana no domingo no Ibirapuera e se exibir por uns 40 minutos.
Enfim, podemos citar inúmeros exemplos, mas basicamente o que se vê é que a necessidade de afeto e aceitação DE UM SER HUMANO que está se transferindo para um animal. É inegável que a dedicação inconteste de um animalzinho e sua dependência em termos de receber comida, higiene, educação e passeios nos faz sentir importantes e amados. Mas não podemos esquecer que eles não são e nunca serão humanos e nunca substituirão um ser humano em nossa vida.
Eles não são um produto com garantia de fábrica, podem ficar doentes (especialmente os de raça, e quanto mais pura e mais selecionada, pior!), ter reações inesperadas, têm interação limitada com o ser humano (afinal não é um deles!), têm uma vida curta e quando chegam à velhice passam por TODAS as mazelas que os "velhos" humanos passam. Outro dia consolei uma senhora que perdeu seu Sheltie de 11 anos dizendo: "fica 1 semana com o meu que está com 15 e vc vai ficar aliviada que o seu se foi com 11 (uma idade avançada para um cão), rapidamente e sem dor." Creio que ela me entendeu.
Cães não têm nossas necessidades estéticas, de luxo, de especificidade alimentar, de sexo, de aceitação social, não fingem, não são hipocondríacos, não sofrem por antecipação, não se apaixonam, entre outras coisas que tenho visto, ouvido e ficado preocupada (com os donos). Eles agem instintivamente, são simples e práticos. Querem fazer parte de uma matilha e se sentirem protegidos por ela. Comer, beber, brincar, garantir seu lugar na hierarquia, cuidar de sua cria, isso é que tem na "mente" de um cão. Mesmo quando você achar que ele está fazendo alguma coisa por que "adora" te agradar, pense de novo...releia acima e veja que ele apenas está fazendo uma das atividades: comer, beber, brincar, etc, etc...que ELE gosta muito. Não estou escrevendo isso para criar polêmica ou desanimar. Senão eu mesma não seria uma criadora, mas minha intenção é desmistificar e tentar mostrar que cruzar a linha que separa um animal de um ser humano pode vir a ser decepcionante a longo prazo.
Comprar um cão e conviver com ele vai lhe trazer momentos maravilhosos, mas por favor, deixe ele ser um cão! Vocês dois vão ficar muito mais satisfeitos, pode ter certeza.